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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Ode às bixas-preta (performance)









ODE ÀS BIXAS-PRETAS

Eu tenho um corpo. Eu tenho uma pele. Eu tenho um corpo coberto por uma pele preta-bixa. Eu tenho uma pele que está cansada de ser reconhecida apenas como preta-bixa.

Minha pele biológica foi inferiorizada pelas ciências e endemonizada por religiões. Por ser negra, foi ignorada pelas Artes com a desculpa racista de que por ser preto, meu corpo não combinava com suas composições. Mas então eu pergunto: para que serviu seus estudos de cor? Por ser bixa, foi patologizada por medicinas e psicologias. Ai eu questiono: a quem serve sua reforma psiquiátrica?

Por ser preta e bixa minha pele, que fazia parte de um corpo coletivo foi arrancada desse e de outros grupos. Com justificativas que se alternavam entre o racismo e a homofobia. "Você é preta demais!". "Você é bixa demais!'. E sabe, é exatamente isso mesmo que eu sou. Preta e bixa em sua máxima potência!

Demorei muito tempo pra perceber que minha pele não se encontra aprisionada em um não lugar. Mas, agora eu sei. Eu sinto, eu existo, eu ocupo, eu preencho, eu materializo uma “utopia”.

Minha pele preta-bixa não é desencontro e sim colisão de raça gênero e sexualidade.

Minha pele preta-bixa é mais que uma conversa de opressões. Ela é criadora de realidades ainda vistas como imperfeitas. Mas, de imperfeita ela não tem nada!

Minha pele é esperta, pilantra, ladra e terrorista. Ela desterritorializa seu corpo e o recoloca em um altar, ao lado de Madame Satã e Mc Lin da Quebrada. Ou melhor. Minha pele bombardeira todos esses altares, com a ajuda de Satã e Lin, com bombas carregadas de desejos descolonizados. Desejos de bixa preta latina suburbana e perigosa!

Eu tenho uma pele que é preta e bixa. Essa pele também é composta por ítens indumentários. Saia, vestido, calça, calcinha, batom, meia arrastão, terno. Ela gosta de chupar e ser chupada. Tocar e ser tocada. Gosta de amar e ser amada, porra! Ela chora. Ela é fraca. Ela elimina. Ela bate. Ela é frágil. Ela é poderosa.

Minha pele preta-bixa é resistência. Ela é insistência. Ela é indispliscência.

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Texto escrito por Castiel Vitorino, e lido no fim da performance “Ode às bixa-pretas” realizada na mesa de debate sobre Estética Negra nas artes. Mesa esta que fez parte da I Marcha do Orgulho Crespo do ES