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sexta-feira, 8 de abril de 2016

reflexões sobre Não-bináries



Inicialmente, é preciso acabar com a binaridade que constitui os diálogos sobre identidades não-binaries, pois não somos apenas uma mistura de dois conteúdos; 60% mulher e 30% homem, ou simplesmente indivíduos que transitam entre esses dois polos, por exemplo. A variabilidade que constitui o humano, seja em culturas ou fenótipos, também atravessa sua sexualidade e por isso a ideia de existirem apenas duas identidades gênero possíveis de serem vivenciadas é absurda. O fato delas serem a norma padrão, o comum de ser visto e almejado, não significa que são únicas possíveis, muito pelo contrário. A normalidade precisa de estabelecer patologias para existir. Ou melhor, é através das patologias que se constrói uma normalidade. Portanto, se identificar com algo que não vá de maneira alguma ao encontro dessa binaridade, é totalmente possível e talvez seja ainda mais comum do que a experimentação de um corpo homem ou um corpo mulher padrão, totalmente puro de hibridismo entre essas duas categorias. Contudo, é   importante frisar que androginia é uma expressão de gênero e não uma identidade. Há homens andróginos assim como existem não-binaries com uma aparência mais masculinizada (de acordo com que cada cultura entende ser masculino). 

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O desencadeamento de processos de ressignificações e desconstruções de gênero é apenas uma das consequências de um movimentos ainda mais amplo produzido por indivíduos que experimentam a não-binaridade. Esses corpos, objetificam antes de tudo uma transcendência daquilo que está dado em  nossas relações de sexualidade. O dicotomia homem X mulher existe pois há uma produção de corpos baseada em diferenças anatômicas que sim, são reais. Neste sentido, pessoas não-binaries questionam os construtos feitos a partir dessas diferenças. Nós, questionamos a binaridade ainda existente, deixamos nítido a multiplicidade que constitui a sexualidade humana e os convidamos a experienciar conosco uma realidade onde homens e mulheres não necessariamente estejam presentes em estrutura psíquica. Mas, é importante ressaltar que não-binarieis não podem ser resumides à integridade de duas classificações distintas, opostas e desconectadas. Nossa variabilidade não está  apenas dentre dois extremos, não porque esses extremos nunca foram de fato foi vivenciados e sim pois nos colocamos como algo que vai além do binarismo. Tão distante ao ponto de ainda não possuirmos nomes para o que somos.

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Acredito que as identidades não-bináries falam de um movimento de desconstrução que desenvolve-se na ordem da construção. Isso porque, nossa resistência à binaridade só acontece pois existe um poder binário instalado em nossas relações sexuais que se diferencia e ressignifica a todo momento, afim de consegui garantir a captura, a tortura e o assassinato dessa e outras transsexualidades. Contudo, penso que no campo das relações de poder, constrói-se não apenas as relações, mas também os indivíduos. Os corpos não binaries apresentam-se, portanto, como produtos essenciais dessas ficções sexuais que nos reprimem verdadeiramente. Eles são as estruturas patológicas que sustentam a concepção de normalidade. Eles constroem-se a medida em que desconstroem a estrutura binaria sexual.