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quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Não-bináries e a construção do vestuário Queer.

Prada, menswear verão 2016.
(colagem que mistura dois grupos de modelos, aparentemente de sexos destintos. Formando então novas criaturas visualmente e essencialmente hibridas, mesclando os elementos do guarda roupa binário e por fim impossibilitando a diferenciação dele.)

Não-bináries e a construção do vestuário Queer.

Mesmo existindo uma tensão entre as identidades não binárias (Nb) e a Teoria Queer, ainda é possível apontar resultados positivos consequentes dessa relação. Isso porque, o conflito entre a vivência Nb versus o saber teórico (acadêmico), não caracteriza-se como a única dinâmica estabelecida entre a sexualidade empírica e o teórica. Tal relacionamento também possui seus momentos de paz, que conseguem atingir sistemas de disciplinaridade social; como a religião e a moda. O vestuário, portanto, encontra-se em risco. Sua estrutura de gênero está sendo abalada há décadas pela subjetividade sexual e teorias referentes a elas. Iniciou-se então, no século passado, a última etapa da gestação de uma nova geração de roupas e adereços, onde impera-se o não classificável. E atualmente, nos encontramos prestes a presenciar o nascimento dessas criaturas feitas de tecidos e aviamentos, que formarão o que eu entendo ser o Vestuário Queer. 

A moda e a androginia possuem um romance antigo, que tornou-se mais explícito a partir do século XX, mais especificamente de sua segunda metade em diante. A década de 1980 apresenta-se como o período onde ocorreu a maior liberdade para esses dois "indivíduos" poderem demonstrar afeto publicamente. Ela também é o marco da reta final da gravidez revolucionaria que a moda está experimentando. 

No final de 1990, o questionamento da normatividade de gênero já estava sendo feito no mundo acadêmico, através de livros como Gender Trouble, de Judith Butler, e  Manifesto Contrassexual, de Beatriz Preciado. E sabendo que a vestimenta configura-se como um reflexo da realidade social em que está inserida, entende-se o porque que grifes como Prada, Gucci e Burberry passaram a recrutar modelos transsexuais e não-bináries após a virada da século. Além de criarem coleções e photoshoots com viés andrógino e agêneros. Surgem também lojas, como a Selfridges, onde os manequins preenchem-se do desejo de não adequação ao perfil heteronormativo, apresentando misturas de peças ditas femininas e masculinas, como se essa separação ja não existisse mais; antecipando e dando-nos um indicio do que iremos experimentar, com mais intensidade, nas próximas décadas. Podendo ainda apontar estilistas como J.W Anderson.

A Teoria Queer, ao reconhecer a multiplicidade sexual, acaba por enfraquecer os únicos dois pilares que sustentam nossa sociedade: a ideia de ser homem e de ser mulher. Ao questionar essa binaridade, os corpos dóceis, denunciados por Foulcaut, tornam-se rebeldes e o homens do Mito da Caverna, descrito por Platão, finalmente conectam-se com a realidade. Sabendo que a moda pode ser interpretada como um poder institucional, essa teoria possui um potencial político de desestabilizar tal sistema burguês, a medida em que ela, amparada pelos identidades não binárias,  promove uma resssignificação da vestimenta. O espirito das roupas está mudando. É possível identificar que ele grita por uma liberdade que é confiscada por modelagens carregadas de mandamentos sociais que visam nos manter presos em nossos lugares de gênero.

Ao pensar na ideia de Vestuário Queer, imagina-se então uma realidade onde as barreiras de sexo e gênero presentes no vestuário seriam finalmente reconhecidas como um construto cultural, havendo um real fim da relação mutualista estabelecida entre roupa e órgão genital. A vestimenta serviria como mais um receptáculo do líquido pós moderno,  tornando-se verdadeiramente relativa, reconhecendo de fato a subjetividade e por fim legitimando o processo de auto reconhecimento no que diz respeito à identidades de gênero. A roupa queer também poderia ser agrupada dentro de um pós-desconstrucionismo, assim como a sexualidade humana. O anti-normativismo finalmente seria experimentado. 

A previsão da chegada de uma nova geração de roupas, descrita no começo do artigo, não deve ser equiparada a uma profecia, pois essa ideia não foi soprada em meus ouvidos por alguma entidade religiosa, por exemplo. Meu pensamento trata-se de um presságio, pois consigo apontar ( e apontei ) indícios de uma era que será inaugurada em algum momento na história da moda. 

Entretanto, a moda não pode ser isenta de sofrer uma análise que denuncie sua dinâmica capitalista. Essa industria, ao reconhecer a sexualidade liquida, concomitantemente inicia um movimento de monetização da mesma. Isso porque, ao pensar em uma multiplicidade, os integrantes da população T (transsexuais) tornam-se novos consumidores, com um grande potencial de compra, já que até então não existia um mercado visual para essa comunidade. Se refletimos mais um pouco, veremos que essa foi a mesma dinâmica que possibilitou o surgimento da moda jovem.

Vale ainda ressaltar que existe uma grande parcela da industria fashion que vai de encontro com essa nova configuração da vestimenta. Que a todo momento tenta barrar a entrada dessas roupas nas passarelas. É por isso então, que acredito está havendo uma imposição desse novo guarda roupa, e não uma adoção por parte da industria. Com isso conclui-se que a moda, mesmo ditando regras de comportamento, acaba mostrando-se apenas como uma subordinada que mais cedo ou mais tarde terá que se submeter aos desejos das novas gerações.

Foulcaut, ao problematizar a binaridade na sexualidade, diz: 
Não se deve fazer divisão binária entre o que se diz e o que não se diz; é preciso tentar determinar as diferentes maneiras de não dizer, como são distribuídos os que podem e os que não podem falar, que tipo de discurso é autorizado ou que forma de discrição é exigida a uns e outros. Não existe um só, mas muitos silêncios e são parte integrante das estratégias que apóiam e atravessam os discursos. (História da sexualidade. v. 1: a vontade de saber)

Adaptando essa ideia para o que entendo ser identidade visual, concluo dizendo que: não se deve fazer divisão binária entre o que se veste e o que não se veste; é preciso tentar legitimar as diferentes maneiras de se vestir. Não existe um só corpo capaz de usar determinada peça, mas sim uma multiplicidade de corpos, constituída por desejos silenciados pelas construções de gêneros, mas que estão prestes a soltar, a ouvir  e a se assustar com suas vozes, como um bebê faz ao nascer.

Bibliografia: 
http://www.revistaforum.com.br/osentendidos/2015/06/07/teoria-queer-o-que-e-isso-tensoes-entre-vivencias-e-universidade/
https://ensaiosdegenero.wordpress.com/2012/05/01/o-conceito-de-genero-por-judith-butler-a-questao-da-performatividade/
https://ensaiosdegenero.wordpress.com/category/teoria-feminista/queer/
http://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/11727/11727_3.PDF